sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Subpersonalidade

Cada um de Nós é uma Multidão
por Diana Whitmore (#)

O artigo a seguir foi extraido do livro de Diana Whitmore Joy of Learning, Aquarian Press, Dartford, UK - 1990, capítulo 4. O artigo foi traduzido para o português por Andrée Samuel. [nota do Redator]
Mary, uma jovem de 11 anos, acorda cedo para ter um tempo na companhia de sua mãe antes dessa ir para o trabalho e Mary para o colégio. Esse momento especial para Mary e para a mãe é vivido tranqüilamente lendo um livro e conversando sobre o dia que terão pela frente. Mary curte muito esses momentos nos quais sua mãe é muito amorosa com ela e tende a regredir para um comportamento de uma criança com idade inferior à que ela de fato tem. Ela busca a segurança, o afeto e a atenção de sua mãe de um modo muito infantil, evocando na mãe sentimentos de proteção, de pegá-la no colo e abraça-la.

Mary vai para a escola, encontra sua amiga e parece ser uma pessoa diferente. Com a sua amiga Mary parece mais velha, orgulha-se de suas notas da aula de artes parecendo estar muito confiante em si e à vontade. Ela diz para a amiga a que farão após as aulas e ela decide que jogos jogarão no recreio. Ela claramente é o líder nessa relação sendo que a sua amiga tem um papel de subserviência.

No caminho da escola Mary e sua amiga encontram dois meninos de sua classe e, novamente, o comportamento de Mary se modifica. Agora ela é agressiva e impetuosa, caçoando dos meninos e provocando-os, irritando-os chegando até o ponto de empurrar um deles. Ela claramente não gosta de um dos meninos e demonstra-lhe isto verbalmente e através do seu comportamento.

Na escola, na aula de matemática, mais uma vez o comportamento de Mary se modifica dramaticamente; agora ela parece confusa, perto das lagrimas e incapaz de trabalhar. Pede a ajuda constante do professor, não compreende a tarefa a ser feita e é surpreendida copiando a lição de outra criança. Quando confrontada com esse comportamento, ela chora copiosamente dizendo que é burra, é incapaz de fazer a lição de matemática e que é um fracasso.

À tarde, na sua aula predileta – artes – Mary se sai brilhantemente demonstrando um grande talento artístico e muita criatividade. Ela está radiante, cooperativa contribuindo para animação da sala. Ela ajuda as outras crianças demonstrando sensibilidade e compaixão.

Num período curto de tempo Mary demonstrou cinco tipos diferentes de comportamentos, indo de um extremo ao outro. Ela parece ser diferentes pessoas e pode estar confusa pelo seu próprio comportamento inconsistente chegando até a pensar que deve haver algo errado com ela. Ela pode estar assustada com seu comportamento agressivo e procurar contrabalança-lo sendo uma boa menina.

Há tantas partes diferentes em nós e tantas variedades de comportamentos e estados internos nos quais entramos que tudo isto parece estar fora do nosso controle consciente. Podemos nos sentir às vezes como sendo várias diferentes pessoas, a despeito de nós mesmos. Quando uma criança se comporta mal, geralmente sente que o fez a despeito de si mesmo – ele não queria realmente ser difícil ou causar o transtorno pelo qual está sendo repreendido.

Assim como as crianças se percebem agindo diferente em situações diferentes, o mesmo ocorre com os adultos – até mesmo com os educadores. É claro que nosso comportamento como educadores varia em função daquilo que acontece na nossa vida pessoal, daquilo que sentimos e do como nossas crianças estão se comportando. Nosso estado interno pode mudar repentinamente da paciência e compaixão para a irritação e o desgosto. Nosso diretor aparece na sala de aula e nos tornamos o professor ideal, orientando a classe com muita habilidade. Podemos estar claramente conscientes da nossa necessidade de impressiona-lo com nossos talentos educacionais. Quando Mary se mostra confusa e chorosa durante a aula de matemática, podemos às vezes sentir compaixão e pacientemente ajuda-la nesse momento difícil para ela. Em outros momentos, talvez por ter sido aquele um dia extenuante, nos sentimos cansados com esse seu comportamento e não lhe damos atenção achando que já está na hora dela aprender a não ser mais uma “criancinha”.

Podemos facilmente perceber nossa própria multiplicidade reconhecendo o quanto modificamos nossa aparência na vida, nossa auto-imagem, nossa percepção e nosso comportamento em relação aos outros assim como nossa experiência interior. A vida pode nos parecer: uma luta, uma dança maravilhosa, um jogo prazeroso, uma tarefa a ser cumprida ou uma existência plena de significado. Um modo de perceber essa multiplicidade é através do modelo das subpersonalidades.

As subpersonalidades são configurações autônomas dentro do todo da personalidade. São identidades psicológicas, co-existindo como uma multiplicidade de vidas numa pessoa; cada subpersonalidade tem padrões de comportamentos específicos e características individuas formando uma entidade relativamente unificada. Cada uma delas tem um estilo e uma motivação por si só que é freqüente e surpreendentemente diferente das outras subpersonalidades. De um certo modo, cada um de nós é uma multidão. Numa criança pode ter o aprendiz cooperativo, o artista brilhante, o super leitor, o rebelde, a criança regredida, o organizador, o palhaço da classe, o amigo amoroso, o sabotador, a boneca adorável, o líder maduro, etc. No educador pode ter a mãe frustrada, o “baby sitter” que se sente aborrecido, o santo satisfeito, o mártir sacrificado, a atriz fracassada, o psicólogo analítico, a autoridade intolerante, o idealista irritado, o doador cansado, o facilitador paciente, o pragmático rígido ou o professor sábio. Cada um dessas características ou subpersonalidades disparatadas demonstrará posturas e mesmo estados físicos únicos; terá suas qualidades emocionais próprias e terá uma determinada atitude mental com crenças, atitudes e visão de mundo correspondentes.

Cada subpersonalidade tem sua própria maneira de se relacionar e de se expressar. Freqüentemente, as subpersonalidades são reativas ao ambiente e são estimuladas por eventos. Por exemplo, se eu retornar do trabalho e encontrar a casa bagunçada, minha subpersonalidade “arrumadeira” aparece, eu me sinto com raiva e me recuso a cozinhar o jantar. Se uma criança se comporta mal, o educador pode ter evocada a sua subpersonalidade “autoridade intolerante”; se por outro lado a mesma criança está assustada, o “facilitador paciente” pode emergir. Da mesma maneira, uma criança pode se comportar de um modo cooperativo e sensível na classe, e se transformar em monstro em casa.

Uma grande limitação para o desenvolvimento da criança, e para a emergência de sua própria personalidade única, pode ocorrer quando ela se identifica fortemente com um familiar e quando essa identificação é tão completa que ela se torna um retrato vivo desse familiar, possuindo todos os maneirismos e idiossincrasias dessa pessoa. O modelo de subpersonalidade pode ser usado para aliviar esse estado não saudável, desviando a atenção para outras subpersonalidades, mesmo para subpersonalidades desconhecidas, permitindo-lhes soltar essa identificação.

Quando uma pessoa está identificada com alguma de suas subpersonalidades, sua vivencia é de que ela é essa subpersonalidade e, como conseqüência, ela perde o acesso com o todo que é a sua personalidade. Por exemplo, se eu estiver identificada com uma subpersonalidade predominantemente emocional, estarei sendo governada pelos meus sentimentos e estarei afastada da minha mente racional. Se eu estiver identificada com uma subpersonalidade profissional poderei estar afastada dos meus sentimentos e/ou de minha intuição. As subpersonalidades em si não são limitantes; é a nossa identificação inconsciente com elas que é limitante.

Assagioli descreveu a incongruência que aparece às vezes entre as subpersonalidades quando escreveu:

“Não estamos unificados; freqüentemente achamos que o estamos, porque não temos muitos corpos nem muitos membros, nem porque uma mão geralmente não machuca a outra. Porém, metaforicamente, isso é exatamente o que acontece conosco. Várias subpersonalidades lutam continuamente: impulsos, desejos, princípios, aspirações são envolvidos numa briga continua.”

Idealmente nós queremos o acesso à nossa personalidade inteira para escolher um comportamento apropriado de acordo com a situação de nossa vida. Nossas subpersonalidades são como músicos de uma orquestra; com cada instrumento tocando a sua própria musica, a desarmonia e talvez o caos resultarão. Evidentemente a orquestra precisa de um maestro que dirigirá os instrumentos para criar uma sinfonia harmoniosa. Todos os músicos são necessários, mesmo que em certos momentos um ou outro seja chamado a apresentar-se solo. Freqüentemente nossa experiência do dia a dia é semelhante à desarmonia de uma orquestra, com as diversas partes nossas procurando uma expressão e controlando inconscientemente nosso comportamento, em vez de se organizar de uma maneira complementar.

Estamos todos sujeitos a nos deparar com forças desconhecidas dentro de nós mesmos. Podemos nos perceber ressentidos ou ameaçados por algo ou alguém; é de grande importância que façamos um exame cuidadoso das motivações subjacentes a esses sentimentos. Talvez estejamos vivenciando uma situação que nos confronta com nossa idiossincrasia de como gostaríamos que as coisas fossem; talvez essa situação e/ou essa pessoa representa algo com o qual inconscientemente temos medo de nos confrontar. Quando não damos a devida atenção a esses estados internos, quando os deixamos de lado ou os jogamos em baixo do tapete, nossa percepção da realidade e nossas relações tendem a se dar de um modo distorcido.

(#) Diana Whitmore: Psicoterapeuta; MA em Educação Confluente, pela Universidade de Califórnia; estudando PhD em Educação pela Universidade de Surrey; fez treinamento didático com Dr. Roberto Assagioli, fundador da Psicossíntese; fez treinamento de Psicossíntese Humanística no Instituto Esalen, Califórnia.

Presidente, e anteriormente Diretora Executiva, do "Psychosynthesis & Education Trust" Centro de Psicossíntese de Londres, que foi fundado pelo Dr. Roberto Assagioli em 1965; Diretora Fundadora do "COUI / UK - Children: Our Ultimate Investment"; Vice-Presidente do Conselho do "COUI / USA - Children: Our Ultimate Investment"; dirige atualmente o programa "Teens & Toddlers" para prevenção de gravidez nas adolescentes; Membro do Conselho de Diretores do "Findhorn Foundation College"

Com mais de 28 anos de prática de psicossíntese, ela treinou numerosos profissionais em psicoterapia, aconselhamento e educação em toda Europa. Autora dos livros "The Joy of Learning - A Guide to Psychosynthesis in Education" Ed. Crucible / The Aquarium Press, UK - 1990 e "Psychosynthesis Counselling in Action" Ed. SAGE Publications, London - 2000.

FONTE: http://www.psicossintese.org.br/Artigos/Multidao_Diana.asp

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Oscar Niemeyer e Leonardo Boff


O comunismo ético de Oscar Niemeyer

 Nas nossas conversas, sentia alguém com uma profunda saudade de Deus. Invejava-me que, me tendo por inteligente (na opinião dele) ainda assim acreditava em Deus, coisa que ele não conseguia. Mas eu o tranquilizava ao dizer: o importante não é crer ou não crer em Deus. Mas viver com ética, amor, solidariedade e compaixão pelos que mais sofrem. Pois, na tarde da vida, o que conta mesmo são tais coisas

    07/12/2012 
                                                                                                                      Leonardo Boff

 Não tive muitos encontros com Oscar Niemeyer. Mas os que tive foram longos e densos. Que falaria um arquiteto com um teólogo senão sobre Deus, sobre religião, sobre a injustiça dos pobres e sobre o sentido da vida?

Nas nossas conversas, sentia alguém com uma profunda saudade de Deus. Invejava-me que, me tendo por inteligente (na opinião dele) ainda assim acreditava em Deus, coisa que ele não conseguia. Mas eu o tranquilizava ao dizer: o importante não é crer ou não crer em Deus. Mas viver com ética, amor, solidariedade e compaixão pelos que mais sofrem. Pois, na tarde da vida, o que conta mesmo são tais coisas. E nesse ponto ele estava muito bem colocado. Seu olhar se perdia ao longe, com leve brilho.

Impressionou-se sobremaneira, certa feita, quando lhe disse a frase de um teólogo medieval: “Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não existe”. E ele retrucou: “mas que significa isso?” Eu respondi: “Deus não é um objeto que pode ser encontrado por ai; se assim fosse, ele seria uma parte do mundo e não Deus”. Mas então, perguntou ele: “que raio é esse Deus?” E eu, quase sussurrando, disse-lhe: “É uma espécie de Energia poderosa e amorosa que cria as condições para que as coisas possam existir; é mais ou menos como o olho: ele vê tudo mas não pode ver a si mesmo; ou como o pensamento: a força pela qual o pensamento pensa, não pode ser pensada”. E ele ficou pensativo. Mas continuou: “a teologia cristã diz isso?” Eu respondi: “diz mas tem vergonha de dizê-lo, porque então deveria antes calar que falar; e vive falando, especialmente os Papas”. Mas consolei-o com uma frase atribuída a Jorge Luis Borges, o grande argentino:”A teologia é uma ciência curiosa: nela tudo é verdadeiro, porque tudo é inventado”. Achou muita graça. Mais graça achou com uma bela trouvaille de um gari do Rio, o famoso “Gari Sorriso: “Deus é o vento e a lua; é a dinâmica do crescer; é aplaudir quem sobe e aparar quem desce”. Desconfio que Oscar não teria dificuldade de aceitar esse Deus tão humano e tão próximo a nós.

Mas sorriu com suavidade. E eu aproveitei para dizer: “Não é a mesma coisa com sua arquitetura? Nela tudo é bonito e simples, não porque é racional mas porque tudo é inventado e fruto da imaginação”. Nisso ele concordou adiantando que na arquitetura se inspira mais lendo poesia, romance e ficção do que se entregando a elucubrações intelectuais. E eu ponderei: “na religião é mais ou menos a mesma coisa: a grandeza da religião é a fantasia, a capacidade utópica de projetar reinos de justiça e céus de felicidade. E grande pensadores modernos da religião como Bloch, Goldman, Durkheim, Rubem Alves e outros não dizem outra coisa: o nosso equívoco foi colocar a religião na razão quando o seu nicho natural se encontra no imaginário e no princípio esperança. Ai ela mostra a sua verdade. E nos pode inspirar um sentido de vida.”

Para mim a grandeza de Oscar Niemeyer não reside apenas na sua genialidade, reconhecida e louvada no mundo inteiro. Mas na sua concepção da vida e da profundidade de seu comunismo. Para ele “a vida é um sopro”, leve e passageiro. Mas um sopro vivido com plena inteireza. Antes de mais nada, a vida para ele não era puro desfrute, mas criatividade e trabalho. Trabalhou até o fim, como Picazzo, produzindo mais de 600 obras. Mas como era inteiro, cultivava as artes, a literatura e as ciências. Ultimamente se pôs a estudar cosmologia e física quântica. Enchia-se de admiração e de espanto diante da grandeur do universo.

Mas mais que tudo cultivou a amizade, a solidariedade e a benquerença para com todos. “O importante não é a arquitetura” repetia muitas vezes, “o importante é a vida”. Mas não qualquer vida; a vida vivida na busca da transformação necessária que supere as injustiças contra os pobres, que melhore esse mundo perverso, vida que se traduza em solidariedade e amizade. No JB de 21/04/2007 confessou: ”O fundamental é reconhecer que a vida é injusta e só de mãos dadas, como irmãos e irmãs, podemos vive-la melhor”.

Seu comunismo está muito próximo daquele dos primeiros cristãos, referido nos Atos dos Apóstolos nos capítulos 2 e 4. Ai se diz que “os cristãos colocavam tudo em comum e que não havia pobres entre eles”. Portanto, não era um comunismo ideológico mas ético e humanitário: compartilhar, viver com sobriedade, como sempre viveu, despojar-se do dinheiro e ajudar a quem precisasse. Tudo deveria ser comum. Perguntado por um jornalista se aceitaria a pílula da eterna juventude, respondeu coerentemente: “aceitaria se fosse para todo mundo; não quero a imortalidade só para mim”.

Um fato ficou-me inesquecível. Ocorreu nos inícios dos anos 80 do século passado. Estando Oscar em Petrópolis, me convidou para almoçar com ele. Eu havia chegado naquele dia de Cuba, onde, com Frei Betto, durante anos dialogávamos com os vários escalões do governo (sempre vigiados pelo SNI), a pedido de Fidel Castro, para ver se os tirávamos da concepção dogmática e rígida do marxismo soviético. Eram tempos tranquilos em Cuba que, com o apoio da União Soviética, podia levar avante seus esplêndidos projetos de saúde, de educação e de cultura. Contei que, por todos os lados que tinha ido em Cuba, nunca encontrei favelas mas uma pobreza digna e operosa. Contei mil coisas de Cuba que, segundo frei Betto, na época era “uma Bahia que deu certo”. Seus olhos brilhavam. Quase não comia. Enchia-se de entusiasmo ao ver que, em algum lugar do mundo, seu sonho de comunismo poderia, pelo menos em parte, ganhar corpo e ser bom para as maiorias.

Qual não foi o meu espanto quando, dois dias após, apareceu na Folha de São Paulo, um artigo dele com um belo desenho de três montanhas, com uma cruz em cima. Em certa altura dizia: “Descendo a serra de Petrópolis ao Rio, eu que sou ateu, rezava para o Deus de Frei Boff para que aquela situação do povo cubano pudesse um dia se realizar no Brasil”. Essa era a generosidade cálida, suave e radicalmente humana de Oscar Niemeyer.

Guardo uma memória perene dele. Adquiri de Darcy Ribeiro, de quem Oscar era amigo-irmão, uma pequeno apartamento no bairro do Alto da Boa-Vista, no Vale Encantando. De lá se avista toda a Barra da Tijuca até o fim do Recreio dos Bandeirantes. Oscar reformou aquele apartamento para o seu amigo, de tal forma que de qualquer lugar que estivesse, Darcy (que era pequeno de estatura), pudesse ver sempre o mar. Fez um estrado de uns 50 centrímetros de altura E como não podia deixar de ser, com uma bela curva de canto, qual onda do mar ou corpo da mulher amada. Ai me recolho quando quero escrever e meditar um pouco, pois um teólogo deve cuidar também de salvar a sua alma.

Por duas vezes se ofereceu para fazer uma maquete de igrejinha para o sítio onde moro em Araras em Petrópolis. Relutei, pois considerava injusto valorizar minha propriedade com uma peça de um gênio como Oscar. Finalmente, Deus não está nem no céu nem na terra, está lá onde as portas da casa estão abertas.

A vida não está destinada a desaparecer na morte mas a se transfigurar alquimicamente através da morte. Oscar Niemeyer apenas passou para o outro lado da vida, para o lado invisível. Mas o invisível faz parte do visível. Por isso ele não está ausente, mas está presente, apenas invisível. Mas sempre com a mesma doçura, suavidade, amizade, solidariedade e amorosidade que permanentemente o caracterizou. E de lá onde estiver, estará fantasiando, projetando e criando mundos belos, curvos e cheios de leveza.

Leonardo Boff é teólogo. Texto publicado na edição eletrônica da revista Brasil de Fato.

FONTE: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/25871/o+comunismo+etico+de+oscar+niemeyer.shtml

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Experiências fora do corpo


FALANDO DE EXPERIÊNCIAS FORA DO CORPO


(Entrevista com Wagner Borges - Publicada na Revista Vialuz – número 10; páginas 35 a 39 - setembro de 1998.)

1. Vialuz: O que é uma projeção astral?
R. Wagner Borges: Projeção astral é a capacidade parapsíquica da consciência se projetar temporariamente para fora de seu corpo físico. É conhecida popularmente como viagem astral ou saída do corpo. Dependendo da doutrina ou grupo que pesquise esse assunto, os nomes para isso são os mais diversos. Por exemplo: projeção astral (Teosofia); experiência fora do corpo (Parapsicologia); projeção da consciência (Projeciologia); desdobramento espiritual, desprendimento espiritual ou "emancipação da alma (Espiritismo); saída astral (Gnose); projeção do corpo psíquico (Ordem Rosacruz); ou simplesmente, viagem fora do corpo.

2. Vialuz: Quer dizer que projeção astral é o mesmo que viagem astral, ou saída do corpo?
R. Wagner Borges: Sim, é a mesma coisa. É que cada um chama por um nome diferente, mas é a mesma experiência.

3. Vialuz: É um fenômeno que só ocorre com médiuns e iniciados esotéricos, ou ocorre também com as pessoas comuns?
R. Wagner Borges: As experiências fora do corpo ocorrem naturalmente com todos os seres humanos. É capacidade natural da pessoa. Independe de contexto religioso, cultural, social, esotérico, sexual ou racial. Ocorre que, quando nos deitamos para dormir, o nosso corpo sofre uma redução natural de seu metabolismo. Os batimentos cardíacos ficam mais tranquilos, e o padrão de ondas cerebrais se modifica. Enquanto o corpo físico descansa, o corpo espiritual - também chamado de corpo astral, perispírito, psicossoma, corpo da alma, corpo sutil, ou corpo de luz -, desprende-se e flutua por cima da parte física. Por ser um corpo de natureza sutil, pode se locomover em alta velocidade e voar a lugares do plano físico ou espiritual.
Essa experiência pode ocorrer de três maneiras básicas:
- Projeção consciente - a pessoa está lúcida fora do corpo e pode controlar a experiência.
- Projeção inconsciente - a pessoa está projetada fora do corpo, mas não tem consciência. Está dormindo fora do corpo.
Projeção semiconsciente - a pessoa está fora do corpo, meio-desperta. Percebe as coisas, mas não consegue interagir lucidamente com a experiência.

4. Vialuz: Quais são os sintomas de uma saída do corpo?
R. Wagner Borges: Os sintomas preliminares de uma projeção são variados. Inclusive, muitos leitores da Vialuz se sentirão familiarizados com alguns deles. Normalmente, as pessoas sentem esses sintomas durante o sono, mas, devido à falta de informação do que está acontecendo, elas ficam com medo de contar para outras pessoas.
Descreverei agora estes sintomas:
- Catalepsia projetiva: Esse fenômeno causa medo em muitas pessoas, mas é muito mais comum do que se pensa. A pessoa acorda no meio da noite (ou mesmo numa soneca durante o dia), e descobre que não consegue se mexer. Parece que uma paralisia tomou conta do seu corpo. Ela não consegue mexer um dedo sequer. Tenta gritar para chamar alguém, mas não sai voz nenhuma. A pessoa luta tenazmente para sair desse estado, mas parece que uma força invisível tolheu-lhe os movimentos. Inclusive, pode ter alguém deitado do lado e não perceber nada do que está acontecendo tão perto.
Dominada por aquela paralisia, a pessoa grita mentalmente: "Eu tenho que acordar! Isso deve ser um pesadelo!" - Mas ela já está acordada, só não consegue se mover.
Devido ao pânico que a pessoa sente, seus batimentos cardíacos se aceleram. A adrenalina se espalha pela circulação e estimula o corpo. O resultado disso é que a pessoa recupera os movimentos abruptamente, normalmente com um solavanco físico (espasmo muscular). Em poucos momentos, seu cérebro racionaliza o fato e dá a única resposta possível: “Foi um pesadelo!”

Algumas pessoas mais impressionáveis podem fantasiar algo e jogam a culpa da paralisia em demônios ou seres espirituais. Na verdade, a pessoa acordou no meio de um processo energético decorrente da mudança do padrão de vibrações do corpo espiritual* em relação ao corpo físico. Ela acordou num estado transicional dos corpos.
Simplesmente ela despertou para uma situação que ocorre todas as noites quando ela dorme. Antes, ocorria com ela adormecida, e naquela situação ela acordou bem no meio da transição.
Se a pessoa ficar quieta e não tentar se mover, sentirá uma sensação de flutuação por sobre o corpo. Ocorrerá um desprendimento espiritual consciente! E então ela poderá comprovar na prática de que aquilo é realmente uma saída do corpo. Verificará, por ela mesma, que não se trata de doença ou coisa do demônio.
Se ela não quiser tentar a experiência, é só tentar mover o dedo indicador de uma das mãos - ou uma das pálpebras -, assim ela recupera o movimento tranquilamente.
- Ballonemant: A pessoa acorda e sente a sensação de estar inflando (semelhante a um balão se enchendo). Na verdade, é sua aura** que está dilatando, mas como ela não sabe disso, pensa que é o corpo que está crescendo e inchando em todas as direções. Se a pessoa ficar quieta e deixar a sensação continuar, ela se projetará suavemente para fora do corpo.
Não há perigo algum. Inclusive, essa sensação é muito familiar a sensitivos e médiuns em geral, pois eles têm forte tendência de soltura energética.
- Sensação de falsa queda durante o sono ou cochilo: Quase todo mundo já sentiu isso alguma vez. A pessoa está deitada cochilando (hipnagogia***) e, repentinamente, tem a sensação de estar escorregando ou caindo abruptamente da cama. Então, ela desperta com um solavanco físico e um pequeno susto. O que aconteceu?
Simplesmente seu corpo espiritual deslocou-se uma polegada para fora do alinhamento energético com o corpo físico e foi tracionado vigorosamente para dentro, pois o metabolismo ainda estava ativo e impediu uma soltura maior.
Quando eu era pequeno, minha avó dizia que isso acontecia comigo porque eu estava crescendo. Só que não cresci muito (tenho 1,67 de altura), e até hoje isso acontece comigo.
- Estado vibracional: A pessoa desperta no meio do sono e sente uma série de vibrações (descargas energéticas) propagando-se pelo seu corpo. Parece que ela tem uma tempestade elétrica percorrendo seu corpo, às vezes acompanhada de fortes zumbidos dentro da cabeça. Isso ocorre porque o corpo espiritual acelera suas vibrações**** para escapar das lentas vibrações do corpo denso. Se a pessoa ficar quieta e deixar a sensação continuar, ela se projetará em instantes.
Há outra sensações decorrentes da soltura do corpo espiritual em relação ao físico, mas essas são as mais comuns.

5. Vialuz: Quais são as vantagens para um projetor consciente?
R. Wagner: Só para esclarecer ao leitor: a pessoa que se projeta para fora do corpo é chamada tecnicamente de "projetor" (ou “projetora”). Antigamente, o pessoal chamava de "viajante astral", "viajor espiritual", "projetor astral", “andarilho das estrelas”, e outros.
As vantagens dessa experiência consciente são inúmeras:
- A pessoa comprova, por ela mesma, que ela não é somente o corpo físico. Sabe, portanto, que pode viver independentemente do corpo carnal. Sabe que é uma consciência espiritual - e seu corpo é a vestimenta carnal transitória.
- Pode encontrar-se, fora do corpo, com as pessoas amadas que já desencarnaram e manter um contato espiritual com elas.
- Pode ajudar pessoas mediante a aplicação de energia consciencial fora do corpo (de forma semelhante a um passe extrafísico).
- Pode encontrar-se com seres espirituais evoluídos, que lhe ensinarão preciosas lições de maturidade e evolução.
- Literalmente, a pessoa perde o medo da morte, pois vendo-se fora do corpo denso e encontrando-se com seres extrafísicos, ela descobre que a morte não aniquila a consciência de ninguém, apenas muda o seu foco e vibracão para os planos extrafísicos.
- No mínimo, é uma maneira de aproveitar as horas de sono para evoluir. E sem gastar energia do corpo, pois o mesmo está adormecido e se recuperando pelo sono.
- Resumindo: Enquanto a consciência se manifesta nos planos extrafísicos, o corpo descansa. Quando ela volta ao corpo, pode ou não lembrar-se dos fatos vivenciados. É que o cérebro pode apagar a lembrança dessas vivências extracorpóreas e misturar por cima um monte de sonhos. Quando a pessoa desperta fisicamente, lembra-se apenas de uma mistura de imagens incoerentes. No entanto, tudo aquilo que ela aprendeu fora do corpo fica registrado em seu subconsciente e surge no momento oportuno como inspiração nos momentos de vigília mesmo. Nada se perde dentro da alma!

6. Vialuz: Há um código de ética entre os projetores? Existe forma de comportamento quando se está projetado?
R. Wagner: Há um código de ética extrafísico (Cosmoética), e seus valores de referência são baseados naquilo que o projetor pensa, sente e faz. Portanto, se alguém tentar uma experiência fora do corpo com motivos negativos, ela será a primeira a se prejudicar! Semelhante atrai o semelhante. No mesmo instante em que ela estiver pensando alguma coisa negativa, ela atrairá energias e seres espirituais negativos para dentro de sua aura. Ela será a primeira a sofrer as consequências de suas más intenções.
Tudo aquilo que pensamos e sentimos reflete-se em nossa aura espiritual. Logo, o nosso corpo espiritual manifesta a média energética do que somos como consciências. Por isso, é fundamental nos motivarmos na direção de tudo aquilo que seja positivo e de acordo com as leis superiores do Universo.

7. Vialuz: Para fazer uma viagem astral a pessoa precisa se preparar através de exercícios energéticos ou de concentração? E tem que ter alguma alimentação especial?
R. Wagner: Exercícios de ativação dos chacras***** e de concentração e visualização criativa ajudam muito a despertar a lucidez extrafísica. Porém, fica difícil descrever algumas dessas técnicas no espaço que dispomos aqui nessa entrevista. Por isso, sugiro ao leitor que acesse o site do IPPB na internet. Lá tem várias informações e dicas práticas sobre as saídas do corpo. O endereço é: http://www.ippb.org.br
Sobre alimentação, o que interfere realmente é a hora em que a pessoa ingere o alimento. Se ela comer imediatamente antes de deitar, dificultará o processo projetivo, pois estará saturando o corpo num momento em que ele precisa estar pronto para relaxar e aprofundar o sono. No meu caso, não faço nenhuma alimentação especial. Não como carne vermelha há anos, mas quando comia me projetava da mesma maneira. Acho que a questão da alimentação está muito envolvida em radicalismos variados. Conheço projetores carnívoros e vegetarianos. Acho que uma alimentação mais leve, sem tanta proteína e gordura animal é muito boa para a saúde do corpo físico. Mas em relação a consciência, o que determina mesmo a qualidade é o que pensamos, sentimos e fazemos.

8. Vialuz: O que mudou em sua vida depois dessas saídas do corpo?
R. Wagner: Comecei a ter experiências fora do corpo na adolescência. Nesses anos todos, tenho aprendido muitas coisas bacanas. Há vários espíritos legais que encontro fora do corpo e que me ensinam muitas coisas. A própria experiência em si mesma já muda o jeito da gente em muito, pois você vive com a plena certeza de que não morre. Você sabe que a perda de alguém que ama é temporária. Você pode encontrá-la fora do corpo e abraçá-la alegremente. Com certeza os seus olhos brilham mais e você encara a vida com melhores perspectivas, mesmo com todos os problemas que surgem na vida diária.
Uma coisa é certa: se eu não vivesse essas experiências, acho que não seria tão bem humorado. Quando penso que sou imortal, começo a rir. E aí percebo que o meu coração está aberto e os meus chacras estão radiantes. O resultado desses estudos e práticas espirituais é que estou bem comigo mesmo e cheio de boa vontade de aprender tudo de bom de qualquer área.

9. Vialuz: Você segue alguma linha espiritual em particular?
R. Wagner: Não. Eu estudo de tudo e mantenho a mente e o coração sempre livres. Estudo Hinduísmo, Taoísmo, Espiritismo, Umbanda, Ocultismo, Teosofia, Eubiose, Antroposofia, Budismo e outros... Procuro somar as melhores partes de cada área numa síntese bem equilibrada. Se quiser, coloca aí que sou espiritualista. Ou então, "sempre livre!"

10. Vialuz: Conte uma experiência que tenha lhe marcado muito.
R. Wagner: Tem tantas. Vou citar algumas bem por alto.
Certa vez, fui levado por um grupo de espíritos chineses para fora da Terra, em pleno espaço sideral. Encontramos um grupo de seres extrafísicos que tinham a forma de focos de luz. Eram muito avançados e, por intuição, eu sabia que eles eram egressos de outros orbes. Um deles interpenetrou minha mente e tentou me passar vários ensinamentos. Só que os conhecimentos eram tão avançados que eu não conseguia assimilar direito. Eles tentaram várias vezes, mas eu não consegui captar corretamente as informações. Voltei para o corpo frustrado e danado da vida comigo mesmo. Então, um dos espíritos chineses me disse o seguinte: “Quando nós o levamos lá, já sabíamos que você não entenderia nada mesmo”.
Daí eu perguntei a eles: “Então, porque me levaram até lá?”
Eles responderam: “Levamos lá para que você tenha a noção correta de que não sabe quase nada! Quando você achar que sabe muito, lembre-se dessa experiência”.
De outra feita, fui projetado dentro do útero de uma amiga minha, que estava grávida de oito meses e comuniquei-me com sua filha lá dentro. Foi uma experiência muito bonita. Mas, nem só de experiências bonitas vive um projetor. Já vi muita coisa medonha mesmo. Têm espíritos revoltados que portam uma atmosfera muito pesada. Muitas vezes, o projetor é levado para dar passes extrafísicos nesse pessoal.
Se eu ficar contando relatos projetivos aqui, nós vamos levar horas conversando. Da próxima vez que vocês me convidarem para vir aqui, aí eu contarei com mais detalhes várias experiências.

FONTE: http://www.ippb.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10538:falando-de-experiencias-fora-do-corpo&catid=137:textos-especiais&Itemid=284

Projeção Astral


A PROJECÃO ASTRAL E AS FORMAS-PENSAMENTO


– Por Victor Rebelo -

         Há alguns anos atrás passei por algumas dificuldades, tanto na área financeira quanto no campo afetivo. Foi uma fase muito difícil da minha vida, porém, analisando a fundo tudo o que estava passando e, buscando despertar minha consciência, soube canalizar forças e superar minhas dificuldades.
         Para isso, contei com a ajuda de irmãos espirituais (1) que estiveram ao meu lado, não como “babás espirituais”, mas como amigos dispostos a me orientar e amparar, sem a intenção paternalista de percorrer o caminho que só cabe a mim percorrer.
Entre estes espíritos amigos, está um que se apresentou como sendo o exu Sr. Tranca-Ruas.
         Certa noite, já de madrugada, despertei projetado fora do corpo físico (2), no corredor da minha casa, que liga a sala com a cozinha. Antes que pudesse pensar em fazer qualquer coisa, algo me chamou a atenção no fundo do corredor. Era uma forma monstruosa, parecida com aquele fantasma verde do filme Ghostbusters – Os caça-fantasmas!
         Ela veio voando na minha direção e me atravessou... Olhei para trás e vi outro monstro, parecido com o primeiro, que também voou na minha direção, me atravessando.
          Pensei, então: – Meu Deus, são espíritos obsessores! (3) Estou sendo assediado.
Imediatamente, comecei a rezar o Pai-Nosso, mas não consegui terminar. Aqueles monstros não paravam de voar, atravessando meu perispírito (4), fazendo caretas e me provocando no intuito de me assustar. E estavam conseguindo!
         Recomecei a orar, e nada de conseguir terminar a prece. Então, não tem jeito! – pensei. Preciso pedir auxílio a algum guardião!
         Iniciei, mentalmente, uma das preces cantadas do exu Sr. Tranca-Ruas.
         Assim que comecei a entoar seu ponto de evocação, um espírito de estatura mediana, vestindo uma camisa preta, lenço vermelho na cabeça e segurando uma espécie de cajado em uma das mãos, atravessou a porta que sai do terraço para a sala de estar.
         Entrou e, antes que me dissesse qualquer coisa, fui logo pedindo socorro. Disse que estava sendo assediado por espíritos obsessores monstruosos.
          Ele, então, com muita serenidade e confiança me respondeu:
– Não são espíritos obsessores. São formas-pensamento (5). São criações emanadas da sua mente. Todos os seus medos e insegurança estão gerando essas formas que estão lhe assustando.
– E o que posso fazer para acabar com elas? – perguntei ansiosamente.
– Autoconfiança! Se você confiar mais em si mesmo, em seus potenciais, bastará dizer “sumam!” e elas desaparecerão para sempre. Quer ver?
         Neste momento, ele ergueu seu cajado e bateu com força, mas sem violência, no chão, e imediatamente aquelas formas-pensamento desapareceram.
         Senti uma força me puxar de volta ao corpo físico (6) e acordei (na verdade já estava acordado, só que fora do corpo), voltando a manifestar minha consciência no plano físico denso.
         Levantei-me da cama e fui beber um copo d’água, refletindo nos ensinamentos que aquele espírito amigo havia me passado.
         Realmente, quantos de nós somos responsáveis pelas dificuldades por que passamos! Quantas vezes, devido à nossa imprudência, atraímos situações que nos causam sofrimento que poderíamos evitar se vivêssemos com maior lucidez espiritual?
         Quantas vezes geramos pensamentos de medo, acreditando que somos incapazes de superar determinada situação, nos sentindo cada vez mais fracos? E o que é pior, passamos a usar drogas ou medicamentos na ânsia de acabar com nossa angústia. Isso quando não acreditamos que alguém fez magia negra contra nós ou que estamos sendo obsediados.
         Na maioria das vezes, nós mesmos é que somos os culpados. Podemos chamar isso de auto-obsessão. E quando determinada ideia é constante em nossa mente (monoideísmo) acabamos gerando as formas-pensamento.
         As formas-pensamento irão permanecer em torno do nosso campo mental, “gravitando” ao nosso redor, pois nós as alimentamos com nossa energia. Elas parecem ter vida própria, mas na verdade obedecem automaticamente a determinados padrões de manifestação, alguns, inclusive, que fazem parte do inconsciente coletivo.
         Muito médiuns e clarividentes as confundem com espíritos, mas não são.
         No meu caso, bastou que eu tomasse consciência de determinados pensamentos negativos que eram comuns, a ponto de serem gerados inconscientemente, para iniciar o processos de desintegração daquelas formas-pensamento.
         O processo de autoconhecimento é eterno. Trabalhemos sempre nele para que possamos nos libertar da cadeia de sofrimento em que vivemos, o samsara, como diz a sabedoria oriental.

         Conheça-te a ti mesmo! Eis a lição libertadora!

(Victor Rebelo é pesquisador espiritualista e editor das revistas Caminho Espiritual e Revista Cristã de Espiritismo).
 FONTE: http://www.ippb.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10976:1183-a-projecao-astral-e-as-formas-pensamento&catid=31:periodicos&Itemid=57).

 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Olhando para trás


OLHANDO PARA TRÁS
 

“... Tal é aquele que tendo feito mal sua tarefa, pede para recomeçá-la afim de não perder o benefício do seu trabalho...”
“... Rendamos graças a Deus que, na sua bondade, concede ao homem a faculdade da reparação e não o condena irrevogavelmente pela primeira falta.” (Capítulo 5, item 8.)

         Culpa quer dizer paralisação das nossas oportunidades de crescimento no presente em conseqüência da nossa fixação doentia em comportamentos do passado.
         Quem se sente culpado se julga em “peccatum”, palavra latina que quer dizer “pecado ou culpa”. Logo, todos nós vestimos a densa capa da culpa desde a mais tenra infância.
         Certas religiões utilizam-se freqüentemente da culpa como meio de explorar a submissão de seus fiéis. Usam o nome de Deus e suas leis como provedores do mecanismo de punição e repressão, afirmando que garantem a salvação para todos aqueles que forem “tementes a Deus”.

         Esquecem-se, no entanto, de que o Criador da Vida é infinita Bondade e Compreensão e que sempre vê com os “olhos do amor”, nunca punindo suas criaturas; na realidade, são elas mesmas que se autopenalizam. por não se renovarem nas oportunidades do livre-arbítrio e por ficarem, no presente, agarradas aos erros do passado.
         Nossa atual cultura ainda é a mais grave geradora de culpa na formação educacional dos relacionamentos, seja no social, seja no familiar. No recinto do lar encontramos muitos pais induzindo os filhos à culpa: “Você ainda me mata do coração!”, tática muito comum para manter sob controle uma pessoa rebelde; ou dos filhos que aprenderam a tramóia da culpa, para obter aquilo que desejam: “Os pais de minhas amigas deixam elas fazer isso”.

         Culpar não é um método educativo, nem tampouco gerador de crescimento, mas um meio de induzir as pessoas a não se responsabilizar por seus atos e atitudes.
         Em muitas oportunidades encontramos indivíduos que teimam em culpar os outros, acreditando ser muito cômodo representar o papel de injustiçados e perseguidos. Colocam seus erros sobre os ombros das pessoas, da sociedade, da religião, dos obsessores, do mundo enfim.

         No entanto, só eles poderão decidir se reconhecem ou não suas próprias falhas, porque apenas dessa forma se libertarão da prisão mental a que eles mesmos se confinaram.
         Dar importância às culpas é focalizar fatos passados com certa regularidade, sempre nos fazendo lembrar de alguma coisa que sentimos, ou deixamos de sentir, falamos ou deixamos de falar, permitimos ou deixamos de permitir, desperdiçando momentos valiosos do agora, quando poderíamos operar as verdadeiras bases para nosso desenvolvimento intelecto-moral.

         “Ninguém que lança mão ao arado e olha para trás é apto para o reino de Deus”. (1)
         Olhando para trás, a alma não caminha resoluta e, conseqüentemente, não se liberta dos grilhões do passado.

         Todos nós fomos criados com possibilidades de acertar e errar; por isso, temos necessidade de exercitar para aprender as coisas, de colocar as aptidões em treino, de repetí-las várias vezes entre ensaios e erros.
         A culpa se estrutura nos alicerces do perfeccionismo. Alimentamos a idéia de que não seremos suficientemente bons se não fizermos tudo com perfeição. Esquecemo-nos, porém, de que todo o nosso comportamento é decorrente de nossa idade evolutiva e de que somos tão bons quanto nos permite nosso grau de evolução. A todo momento, fazemos o melhor que podemos fazer, por estarmos agindo e reagindo de acordo com nosso “senso de realidade”.
         O “arrependimento” resulta do quanto sabíamos fazer melhor e não o fizemos, enquanto que a culpa é, invariavelmente, a exigência de que deveríamos ter feito algo, porém não o fizemos por ignorância ou impotência.
         A Divina Providência sempre “concede ao homem a faculdade da reparação e não o condena irrevogavelmente”. Não há, razão, portanto, para culpar-se sistematicamente, pois ele será cobrado pelo “muito” ou pelo “pouco” que lhe foi dado, ou mesmo, “muito se pedirá àquele que muito recebeu”. (2)
         Assevera Paulo de Tarso: “a mim, que fui antes blasfemo, perseguidor e injuriador, mas alcancei misericórdia de Deus, porque o fiz por ignorância, e por ser incrédulo”. (3) Tem-se, dessa forma, um ensinamento claro: a culpa é sempre proporcional ao grau de lucidez que se possui, isto é, nossa ignorância sempre nos protege.
         Não guardemos culpa. Optemos pelo melhor, modificando nossa conduta. Reconheçamos o erro e não olhemos para trás, e sim, para frente, dando continuidade à nossa tarefa na Terra.


 (1) Lucas 9:62.  (2) Lucas 12:48. (3) 1º Timóteo 1:13.

Do livro “Renovando Atitudes”. Psicografia de Francisco do Espírito Santo Neto

Solidão

SOLIDÃO
Segundo Pascal, o grande pensador científico-filosófico do século XVII, “a verdadeira natureza do homem, seu verdadeiro bem, sua verdadeira virtude e a verdadeira religião são coisas cujo conhecimento é inseparável.
Nem sempre a solidão pode ser encarada como dor ou insânia. É, em muitas ocasiões, períodos de preparação, tempos de crescimento, convites da vida ao amadurecimento.
De acordo com o pensamento de Pascal, o âmago do ser está intimamente ligado ao bem, à virtude e à religião. É justamente nas “épocas de solidão” que conseguimos a motivação necessária para estabelecer a verdade sobre esse fato.
Na solidão é que encontramos sanidade para nosso mundo interior, respostas seguras para nossos caminhos incertos e nutrição vitalizante para os labores que enfrentamos em nossa viagem terrena.
Nestes nossos apontamentos sobre a solidão, não estamos nos referindo à “tristeza de estar só”, mas sim, necessariamente, à “quietude íntima”, tão importante e saudável para que façamos um trabalho de autoconsciência, valorizando as nuances de nossa vida interior.
Muitos indivíduos vivem dentro de um ciclo diário estafante. Realizam suas atividades num ambiente de competitividade agitação, pressa e rivalidade, vivendo em constante tensão psicológica e, por conseqüência, alterando suas funções fisiológicas. Por viverem num estado de cansaço e desgaste contínuos, não conseguem fazer uma real interação entre o meio ambiente e seu mundo interno, o que ocasiona sérios problemas de convivência e inúmeros conflitos pessoais.
Nem sempre é possível abandonarmos a vida alvoroçada, os ruídos e as músicas estridentes, talvez seja até mesmo inviável; mas é perfeitamente realizável dedicarmos algum tempo à solidão, retirando-nos para momentos de reflexão.
Nos instantes de silêncio, exercitamos o aprendizado que nos levará a abrir um canal receptivo à Consciência Divina. É nesse momento que ficamos cientes de que realmente não estamos sozinhos e que podemos entrar em contato com a voz da consciência. A voz de Deus, por assim dizer, começará a “falar em nós”.
Inúmeras criaturas criam uma mente agitada por temerem que estão vazias, pensam não haver nada dentro delas que lhes dê proteção, apoio e segurança. Acreditam que são uma casca, que precisa exclusivamente de sustentação exterior; por isso, continuam ocupando a casa mental ansiosamente, obstruindo seu acesso à luz espiritual.
A mente pode ser uma ajuda efetiva, ou mesmo um obstáculo ferrenho na escolha da melhor direção para atingirmos o amadurecimento íntimo. A crença em nossa limitação é que faz com que restrinjamos nossa mente. Isso se agrava quando envolvemo-la no burburinho de vozes, no tumulto e na agitação do cotidiano, passando assim a não avaliarmos corretamente seu verdadeiro potencial.
São muitos os caminhos de Deus, e a solidão pode ser um deles. “E saindo, foi, como costumava, para o Monte das Oliveiras; e também os seus discípulos o seguiram”. (Lucas, 22:39)

Jesus Cristo, constantemente, se retirava para a intimidade que o silêncio proporciona, pois entendia que a elevação de alma somente é possível na “privacidade da solidão”.
O Cristo Amoroso sabia que, quando houvesse silêncio no coração e no intelecto, se estabeleceriam as bases seguras da relação entre a criatura e o Criador, proporcionando a percepção de que somos unos com a Vida e unos com todos os seres.
“... buscam no retiro a tranqüilidade que certos trabalhos reclamam. (...) Isso não é retraimento absoluto de egoísta. Esses não se insulam da sociedade, porquanto para ela trabalham”. (questão 771 de “O Livro dos Espíritos”)
A Espiritualidade Maior entende que, nos retiros de tranqüilidade, criamos uma sustentação interior, que nos permite sintonizar com as leis divinas e com os valores reais da consciência cristã.
Ouçamos com os ouvidos internos, pois ninguém pode assimilar bem uma experiência que não provenha de sua própria orientação interior.
Ninguém é capaz de seguir sua verdadeira estrada existencial, se não refletir sobre sua essência. Não encontraremos o caminho de que verdadeiramente necessitamos, se nós mesmos não o buscarmos, usando nosso inerentes recursos da alma para perceber as inarticuladas orientações divinas em nós. Somente cada um pode interpretar as razões da Vida em si mesmo.
Adotemos o aprendizado com o Senhor Jesus, exemplificado no Horto das Oliveiras: retiremo-nos para um lugar à parte e cultivemos os interesses de nossa alma.
Se não encontrarmos um recanto externo que facilite a meditação, nem alguma paisagem mais afastada junto à Natureza, onde possamos repousar da inquietação da multidão, mesmo assim poderemos penetrar o nosso santuário íntimo.
Sigamos o mestre, recolhendo-nos na solidão e no silêncio do templo da alma, onde exclusivamente encontraremos as reais concepções do amor e da justiça, da felicidade e da paz, de que todos temos direito por Paternidade Divina.
Hammed
Do livro “As Dores da Alma” - Psicografado por
Francisco do Espírito Santo Neto

Estado Mental


ESTADO MENTAL

          “... O egoísmo é, pois, o objetivo para o qual todos os verdadeiros crentes devem dirigir suas armas, suas forças e sua coragem; digo coragem porque é preciso mais coragem para vencer a si mesmo do que para vencer os outros...” (Cap. XI, item 11 – ESE – Allan Kardec).

          Para que atinja a espiritualidade, já afirmava as antigas religiões do Oriente, seria preciso que o homem se apartasse do “maya”, que são as ilusões da existência, do nascimento e da morte.
            Para que pudesse conquistar o “nirvana”, que diziam que seria imperativo extinguir todo o desejo de ser, aniquilando assim o “ego”, que é a individualidade exaltada e distraída pelas fantasias do mundo.
         Ao mesmo tempo, encontraremos Jesus Cristo instruindo-nos que,  para alcançarmos o “Reino de Deus”, é preciso nos despojarmos do “egoísmo”, o terrível adversário do progresso espiritual.
            As Bem-Aventuranças do Mestre nada mais são do que vias para conseguir atingir a iluminação, ou seja, elevar-se através da mansuetude, humidade e simplicidade, abandonando todo o sentimento de personalismo.
         A moderna psicologia tem toda a  atenção voltada para que as pessoas entrem em contato com a realidade e termine com suas ilusões, que são as causas da distorção de sua visão e percepção de si mesmas para com as outras.
         O “maya” das religiões orientais era tudo que impedia as almas de atingir o estado de “bem-aventurados”, também conceituado como “nirvana” ou “reino dos céus”, conforme as diferentes denominações e crenças religiosas.
         É realmente ilusão de satisfazermos os próprios interesses em detrimento dos interesses dos outros que caracteriza o estado de egoísmo – um conjunto enorme de ilusões, que nos tira do senso de realidade e de uma compreensão mais acurada de tudo e de todos.
         “Não devo ser contrariado”, “Preciso controlar os outros”, “Sou dono da verdade”, “Nunca poderia ter acontecido comigo” são atitudes ilusórias herdadas por nós de crenças despóticas e prepotentes, filhas da egolatria, ou seja, “culto ao eu”.
            As ilusões de “tudo para mim” ou de “tudo girar em torno de mim” vem do0 interesse individualista, resquício da animalidade por onde transitamos, em contato com os reinos menores da natureza, em priscas eras.
         A caça no mundo animal nada mais é do que o uso dos instintos de preservação e conservação: felinos de grande ou pequeno porte como, por exemplo, o leão e o gato, matam seres indefesos e cordiais, como a antílope e o beija-flor, para alimentarem unicamente a si próprios e suas crias. Não devem, porém, considerados como egoístas e cruéis, pois somente colocam em prática os mecanismos atávicos de sua criação, frutos da própria Natureza.
         “O egoísmo e o orgulho têm a sua fonte num sentimento natural: o instinto de conservação. Todos os instintos têm a sua razão de ser a sua utilidade, porque deus nada pode fazer de inútil”.
Em quase todas as crianças é perceptível à necessidade exclusivista de atenção dos pais em torno delas, como centro de tudo, com a simples presença no lar de um segundo filho do casal.
         É natural e compreensível o aparecimento do impulso egóico.
O medo de perder suas satisfações, cuidados e compreensões psicoemocionais, faz com que a criança nessas condições use o “instinto de preservação”, afim de “conservar” o caminho, o afago e o amor, antes somente voltados para ela, e agora dividido com o novo irmão.
         O denominado ciúme ou egocentrismo infantil não poderá ser considerado anormal, desde que não tome proporções alarmantes. É uma reação natural diante de situações verdadeiras ou imaginadas, de perda de afeto, podendo existir sutilmente disfarçada ou claramente demonstrada.
         Nas criaturas que desenvolve seus primeiros passos no aperfeiçoamento ético-moral, a tendência egoística é um estado instintivo, próprio do seu grau evolutivo, e não um defeito de caráter incompreensível, nem uma imperfeição inexplicável da índole humana.
         “Esse sentimento, encontra em seus justos limites, é bom em si; é o exagero que torna mau e pernicioso...”.(2) Como o afeto necessita, por determinado tempo, do cordão umbilical ou mesmo da placenta para sua manutenção, assim também a humanidade transformará gradativamente esse impulso inato e ancestral, adquirido através dos séculos e séculos, na luta pela sobrevivência nos estágios primitivos da vida.
         Essa mesma humanidade observará no futuro atitudes mais equilibradas e coerentes com seu patamar evolutivo, aprendendo a usar cada vez melhor seus sentimentos, antes somente instintos.
         Desta forma, entendemos que o egoísmo, esse agrupamento de ilusões de supremacia, existirá por determinado período de tempo nas criaturas, até que elas consigam se concretizar de que a atitude de “lavar as mãos”, de Pôncio Pilatos, isto é, consideração excessiva aos seus interesses pessoais, agindo arbitrariamente, trará sempre desilusões e obstrução na percepção do mundo em que vivemos. Já o exemplo do Cristo nos transfere a uma ampla realidade de que o amor é única força capaz de nos trazer lucidez e equilíbrio no relacionamento conosco e com os outros.
         Eis o antídoto contra o egoísmo: NÃO FAZER AOS OUTROS O QUE NÃO GOSTARÍAMOS QUE OS OUTROS NOS FIZESSEM”.

(Do livro “Renovando Atitudes” - Francisco do Espírito Santo Neto, pelo espírito HAMMED).